O cheiro a terra molhada invade as suas narinas como nunca. Uma torrente de odor que traz memórias ao seu pensamento e faz lembrar momentos passados. A roupa dela ainda permanece no corredor, forma um caminho denunciando a velocidade com que caminhava para o seu quarto e ao mesmo tempo despia cada peça de roupa com uma sensualidade enormíssima. O perfume é devastador, e todo ele paira sobre o aposento sombrio como uma neblina numa manhã de Outono. As janelas da varanda, que deixam ver a paisagem citadina daquela praça, transpiram as gotas do orvalho que caiu durante toda a noite. Cada uma delas escorre delicadamente pelo vidro, deixando um rasto molhado e criando um padrão anódino sobre ele.
Ele permanece ali, no meio de todo aquele cenário. Restam os pedaços de uma época da sua vida outrora feliz. Uma época que celebra pouco tempo de vida, mas que deixa saudade. Um ano e parece que em todo este tempo nada se moveu, nada se modificou, nenhuma partícula de sentimento, nenhuma nuvem de desejo, nenhum beijo de prazer, se desvaneceu.
A culpa escorre-lhe pelo peito, e a saudade passou a ser uma tela na parede. O amor foi guardado num cofre e a indiferença parece um par de meias que se tira todos os dias da gaveta.
Jaz na cómoda do pobre artista o pincel engadanhado da tinta negra que borrou a sua última tela. Jaz também o copo que outrora possuiu água, mas agora só usufrui do pó.
A lembrança de um luto que nunca foi feito está poisada sob o cadeirão de seda vermelha que permanece no seu canto. Um fato escuro, de botões cinza, com linhas brancas unindo aqueles pedaços de tristeza que nunca foram postos.
Urge o primeiro sol do dia no horizonte e as gotas escorrem. Agora correm paralelamente umas às outras na ânsia de alcançar o infinito. A neblina continua e no fundo vêem-se silhuetas, pequenas e ténues, a caminhar pouco devagar para chegarem a um destino.
O pobre artista permanece com a sua arte dentro do peito e, as pernas dentro da cama.