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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

6 rodas, 4 bocas, 1 sentir

  Hoje quando entrava no autocarro, como habitualmente, algo me despertou a atenção. Algo me captou os sentidos e o pensar e não foram os habituais cheiros, as habituais pessoas, os habituais sons que sinto quando caminho pelo apertado corredor que separa as duas fiadas de assentos do veículo.
  Caminhei e sentei-me no lugar virado para os quatro assentos e, fiquei deliciado com a paisagem que via. No meio de tanta agitação, tantas gentes, tanto suor escorrido e agora enxuto na pele das pessoas que entravam e demonstravam bem nas suas faces o cansaço de um dia de trabalho, talvez desonesto, estavam quatro indivíduos. Sentados.
  Coloquei a mão por baixo do queixo e apoiei-me sobre o parapeito da janela, mirei um pouco a rua e embaciei o vidro com o meu sopro, desenhando-se automaticamente uma nuvem na superfície polida. Voltei a olhar em frente e permaneci com o olhar colado naquela cena. Eram quatro e estavam tão felizes. Uma Mãe, um Pai, um filho e uma filha. Uma Mãe que ao entrar na camioneta beijou o marido com um amor e um apreço nos olhos como eu vira poucas vezes. Um Pai com um olhar materno e protector para com os filhos, apoiado no seu guarda-chuva e com a sua pasta encostada aos pés, e com um amor para com a sua amante, escrito nos lábios. Dois irmãos, com a amizade desenhada nos rostos como as letras que estavam nos cadernos que traziam nas mochilas da escola.
  Estava a ser uma viagem espantosa, era empolgante ver uma família a usufruir de um transporte junta e com um ar tão feliz, tão dedicado. Ouviam-se os sorrisos e viam-se as gargalhadas a colidir nos ouvidos das pessoas cinzentas que permaneciam sentadas nos restantes assentos, com o suor seco nas faces cansadas.
  Eu não. Eu olhei, eu mirei, constantemente, com interesse, e sem discrição alguma. Não consegui ficar imune àquele quadro raro, àquela imagem que me marcou.
  Tudo era cinzento e a cor estava ali, a alegria, a vida boa. Não viajam num carro, onde cada um conversa de si para si, onde não se vêem uns aos outros. Viajam num local onde existem cheiros, sons, imagens, um local onde se olham, onde conversam, onde começam um bom diálogo que terminará ao jantar e se prolongará até deitar as crianças e ficará suspenso até à próxima viagem de autocarro.
  Pudesse eu escrever a felicidade.

1 comentário:

  1. Um choque emocional grandioso, exposto num texto magnífico!
    Sim, não se pode escrever a felicidade, mas estiveste muito próximo de o fazer!

    Felicidades.

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