Novo blogue, Diz-se: adeus! Veja agora!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Felicidade (parte I)

  Há muito tempo atrás, quando as casas eram redondas, as unhas cresciam para trás e os cabelos eram azuis, uma menina chamada de Felicidade decidiu fazer uma promessa. Correu para o monte mais alto, do ponto mais alto do mundo, onde as nuvens faziam cócegas na ponta do nariz como as barbas de um avô, quando lhe beijamos a bochecha. Subiu o mais rápido que pôde e gritou o mais alto que conseguiu:
  – Que sejam as casas quadradas, que cresçam as unhas para a frente e que sejam os cabelos castanhos se algum dia a felicidade acabar neste mundo que é meu e de todos aqueles que alimentam todos os dias aquilo que será para sempre a nossa casa! – e caiu de joelhos no chão, desfalecendo e começando a chorar como se tudo fosse desabar à sua volta.
  Passados alguns dias a Felicidade adoeceu e não pôde sair mais de casa, começou a ficar inerte e não se sentia mais ela própria, sentia fome, uma escassez tão grande, um desejo de alimentação que não tinha. Não sabendo mais que fazer e, sofrendo porque não a alimentavam, a Felicidade morreu, faleceu no leito da sua casa redonda.
  Nessa noite, as casas viraram quadrados, as unhas começaram a crescer para a frente e os cabelos mudaram para castanho. Não mais se viu um sorriso e não mais se ouviram risos naquela que era a cidade da felicidade, a cidade que viu morrer aquilo que alimentava o dia-a-dia de cada um, a Felicidade.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Óh Hades!

  As suas mãos estão geladas e a sua face tornou-se pálida de repente.
  A neve continua a cair e a tornar aquele quadro numa tela branca. Nenhuma luz faz sentido no meio daquela escuridão que se instala e daquele respirar cansado que sai da sua pequena boca. Permanece ajoelhada por debaixo do candeeiro coberto de neve que ilumina a rua deserta. O seu queixo treme e da sua boca sai a respiração mais opaca que alguma vez fora vista. Não tem nome, não tem roupa. O frio que sente já não a mata mais, deixa-a ali, gelada, iluminada pela claridade amarela do candeeiro, esperando por Hades – como quem espera um autocarro para regressar a casa.
  Na esperança de que venha com boa disposição ela prepara-se para formular um pedido, mas o frio não a deixa mexer o maxilar para treinar um discurso que tenciona dizer desde que conhece a vida.
  Hades pinta a rua em tons de vermelho para anunciar a sua chegada. Trás um carro sanguinolento e veste trajes negros, a sua barba e cabelos compridos não revelam um rosto mas talvez assim seja melhor. A perversidade cheira-se ao longe. Pára junto da pequena criança que treme e profere dois vocábulos soantes. A neve sob o candeeiro cai sobre a rapariga e esta agita-se de frio.
  Esta, depois de se colocar de pé, revela uma Deusa. Uma fraude, a fria criança era uma fantasia pronta para encantar Hades e roubar-lhe o seu capacete da invisibilidade.
  Deixando cair um manto de seda sobre os pés, revela dois peitos de mulher e um vaso fecundo que geme pelo sexo de Hades.
  Numa rápida erecção e num carnal desejo daquilo que é puro, Hades fere a pele das costas daquela Deusa, penetrando a sua vagina à medida que os seus olhos se cobriam de um negro de prazer. A deusa transformava-se aos poucos numa névoa e gemia de prazer, enquanto uma cauda de leão que crescia nas costas, alcançava o capacete da invisibilidade de Hades.
  Um jorro de sangue saiu da boca de Hades quando a Deusa lhe espetou um punhal de cristal no peito e lhe cortou o falo.
  Assim ficou Hades sem sexo. Assim foi Hades traído pelo anseio de prazer.