Novo blogue, Diz-se: adeus! Veja agora!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Diários de amantes (parte III)

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  A realidade nua e crua chegara, ficara tarde e todos estavam a deixar o local, extraordinariamente surge a pergunta «Podemos ficar, que achas?» … E ficámos. Sentámo-nos de frente à lua e ao seu reflexo no rio. Estava frio, e aquela brisa era cortante. A noite já não era aquela criança inocente, estava a tornar-se demasiado silenciosa e pouco acolhedora. Coloquei o meu braço por cima do seu ombro, usei o pretexto de ela tremer por causa do frio e tentei aquecê-la com o meu calor. Não tive sucesso pois a minha ansiedade reacendeu devido aquele gesto e agora tremíamos os dois em frente à lua. Achei um teatro bonito, até porque os romances não têm sempre a mesma história. A verdade é que, estava, estranhamente a adorar aquele momento e não queria que ela saísse de perto de mim, não queria largá-la de maneira nenhuma.
  A ingratidão do tempo revelou-se e levantamo-nos calma e tristemente para que a despedida demorasse mais um pouco. A verdade é que ela só teria de acontecer alguns metros depois, mas não havia problema em abraça-la antes. Caminhamos até perto da estação de comboios. Não poderíamos desejar uma cena romântica, em que o vapor dos comboios se confundisse com o bafo quente que saía das nossas bocas e que se dissipava no frio da noite, pois os comboios não eram mais a vapor e não estava assim tanto frio. A verdade é que tudo se tornara romântico pois não conseguia-mos largar-nos mais, fosse por causa do frio, ou por causa de quer-mos mesmo estar perto um do outro.
  Um ruído vindo de longe anunciou a chegada da máquina que nos levaria até ao nosso destino. A temperatura no interior do combóio obrigou a que eu não permanece-se tão perto dela como desejaria, de qualquer modo, resolvi emprestar-lhe o meu cachecol uma estação antes daquela em que ela sairia. Depois de o enrolar em volta do seu pescoço, saiu deixando um rasto de perfume inesquecível. Eu permaneci sentado e limitei-me a olhar pela janela, vendo as luzes a passar rapidamente enquanto eu mantinha na minha mente a imagem do seu rosto, com aquele sorriso tímido que não conseguia disfarçar sempre que me dirigia a ela.

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domingo, 31 de julho de 2011

Diários de amantes (parte II)

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  Não foi preciso muito, pois alguns dias mais tarde o tal fado quis que continuássemos essa conversa que não parecia ter um fim previsto. Facto foi que a continuámos. A sua forma de escrever era incrivelmente adequada à sua forma de falar, tímida mas sempre doce em cada palavra. Apaixonei-me.
  Aquele nó que sentia na barriga aumentou e de súbito subiu até ao esófago, deixando a minha maça de Adão com um aspeto semelhante ao de um ascensor, sempre a subir e a descer, engolindo em seco de cada vez que a via, ou falava com ela.
  Procurava-a todos os dias com o olhar, mas sempre que a via desviava-o, pois o receio de não saber que lhe dizer num encontro informal era demasiado grande. Vi-a algumas vezes e cumprimentava-a com um beijo na sua suave face. Sempre desejei alcançar mais, pois perto encontravam-se uns lábios perfeitos de uma deusa.
 
  O local foi o mesmo, tal como no primeiro dia, desta vez o tempo que tinha-mos era maior e eu sabia que ela tinha um nó igual ao meu na sua garganta. Um que não a deixava falar e fazia com que os momentos de silêncio fossem trocados pelos momentos de conversa e os de fala pelos de silêncio, tornando as nossas conversações caladas, nas quais raramente falávamos, com a boca. Podia sentir o desejo que tinha de me abraçar, de estar mais perto de mim, pois eu tinha-o a dobrar. A vontade de a agarrar junto de mim, de sentir o seu calor próprio era intensamente perigosa, mas aquele nó não deixava que nada acontecesse.
  Passeávamos junto ao rio que permanecia espelhado sob o fundo sujo e verde, pouca era a agitação que acontecia naquela noite escura. Ouviam-se as pessoas que passavam e as músicas que tocavam por ali perto, tudo criava um ambiente estranhamente acolhedor para aquele acontecimento, mas eu sabia que se não fosse eu mesmo, a tocar-lhe na mão, a beijar-lhe a sua bochecha, ou a dizer-lhe uma palavra, ela também não o faria.

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domingo, 3 de julho de 2011

Diários de amantes (parte I)

  Querido diário, não sei como começá-lo. A última vez que te escrevi foi esquecida no momento em que as rasguei a todas, às páginas que tinha escrito e que resolvi queimar, rasgar, enterrar, qualquer coisa. Fi-lo porque o seu cheiro continuava impregnado em cada centímetro das folhas que havia escrito, cada milímetro de papel de cada página tinha embutido o seu perfume, as nossas vivências, tudo aquilo que havíamos passado. Tudo se perdeu, querido, a verdade é que tudo voou como uma ave que vagueia pelos céus. Nada permaneceu como as juras que fizemos previam. Nada correu como planeado e ficou o amargo sabor de que tudo foi em vão, nada foi levado a sério a não ser o tempo desperdiçado a insistir em algo impossível de continuar. A verdade é que agora aqui estou, escrevendo, como uma criança que aprende a juntar as primeiras letras e a formar as primeiras palavras da sua vida. Não sei mais como escrever, apenas sei que o tenho de fazer de novo, pois neste momento existe um turbilhão de sentimentos que preciso de deitar para fora, para o exterior, pois tudo é intenso e difícil de compreender. Não como antes, agora tudo é compreensível de outra maneira, mas difícil de entender por outro lado. Continuo confuso, continuo estranhamente invulgar e estranhamente romântico quando tento escrever, mas a verdade é que nunca sai da maneira como tinha idealizado, mas, esqueçamos então, porque preciso de gastar a tinta que tenho em coisas que realmente importam, agora.
  Preciso de começar a descrevê-lo como uma história, para que o percebas como tal, mas talvez te soe a memória em certas passagens, perdoa-me por isso, mas recordar faz com que me sinta lá de novo e tudo se torna vivo outra vez.
 
  Não tínhamos mais do que a idade jovem e estávamos todos juntos para uma reunião específica, o ambiente era solto de mais para lhe chamarmos um encontro, mas também não se poderia chamar de festa. O convite tinha sido feito singularmente e vinha especificado que seria um acontecimento festivo, com pessoas. Todos estávamos juntos, por entre vegetações e pessoas que vagueavam ao redor, conversávamos e, inevitavelmente bebíamos bebidas alcoólicas, o consumo inevitável neste tipo de ocasiões. A idiotice começava a entrar na conversa, como um convidado que chega atrasado, vem bem disposto e pronto a desculpar-se por chegar tarde à festa. Assim fazia a idiotice, chegou tarde mas veio para ficar e para fazer rir todos aqueles que entrassem na brincadeira. Entre muita conversa, risos e choros, as luzes apagavam-se ficando apenas os brilhos das bolas luminosas que permaneciam acesas dentro dos candeeiros ao redor. Fora isso, só pequenos pontos cor de laranja brilhavam entre o nosso grupo. Começou a tornar-se silencioso e depois resolvemos mudar de local, certamente procurando mais claridade.
  Sentei-me, e ela sentou-se a meu lado. Não foram precisos mais do que uns segundos para o odor que trazia consigo passar rente do meu nariz e deixar-me petrificado com a sua beleza cega, a beleza que eu não via mas sentia. Falei-lhe e falamos. Assim foi por algum tempo, e o interesse, esse despertou-se de tal modo que fiquei preso a ela, como uma pedra que fica num sapato, não por ser desagradável, mas por ficar lá no sapato e não sair tão cedo, por preguiça de descalça-lo.
  O menos cobiçado chegou cedo, ao contrário da idiotice. O seu nome é dito todos os dias montes de vezes e sempre no fim de uma boa conversa. Não o quis dizer, portanto contornei o discurso e tentei preservar essa desagradável palavra ao máximo, o certo é que a proferi e aí o nó na barriga chegou. Adeus.

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A Felicidade (parte II)

  – Porque estará um clarão tão claro lá no fundo?
  – Talvez seja apenas uma luz acesa, meu filho, deve ser apenas isso. – suspirou.
  «Uma luz acesa, meu filho…» disse-me ela, «Uma luz acesa …», como poderei esquecer essa frase quando na verdade não era uma luz acesa. Era o calabouço, era ali que ela estava fechada. Enjaulada da claridade do dia, iluminada por uma luz artificial com um desligar automático, um sol fabricado que não desvanecia, que não ficava cor-de-laranja, que não ficava cor-de-rosa, nem amarelo. O sol nunca será amarelo, mas parece. Ela estava ali, amordaçada, com um pano sarnento, um pano embebido em porcaria de outras, coisas.
  «Eu sou a Felicidade, recebi o seu pedido.», mas não recebeu coisa nenhuma, foi levada, persuadida a deslocar-se àquele lugar de morte, àquele lugar onde o cheiro a putrefacção se misturava com o cheiro do mijo que deixara a parede da entrada amarela, àquele lugar infeliz.
  As casas não ficaram quadradas, as unhas não cresceram para trás, e os cabelos não ficaram castanhos porque a Felicidade morreu. As casas deixaram de ser redondas e as unhas deixaram de crescer para trás e os cabelos deixaram de ser azuis porque a Felicidade foi raptada, presa, enjaulada num lugar escuro, longe do mundo que a esperava. A Felicidade foi raptada e, as casas, as unhas e os cabelos, tudo ficou mal, tudo.