– Porque estará um clarão tão claro lá no fundo?
– Talvez seja apenas uma luz acesa, meu filho, deve ser apenas isso. – suspirou.
«Uma luz acesa, meu filho…» disse-me ela, «Uma luz acesa …», como poderei esquecer essa frase quando na verdade não era uma luz acesa. Era o calabouço, era ali que ela estava fechada. Enjaulada da claridade do dia, iluminada por uma luz artificial com um desligar automático, um sol fabricado que não desvanecia, que não ficava cor-de-laranja, que não ficava cor-de-rosa, nem amarelo. O sol nunca será amarelo, mas parece. Ela estava ali, amordaçada, com um pano sarnento, um pano embebido em porcaria de outras, coisas.
«Eu sou a Felicidade, recebi o seu pedido.», mas não recebeu coisa nenhuma, foi levada, persuadida a deslocar-se àquele lugar de morte, àquele lugar onde o cheiro a putrefacção se misturava com o cheiro do mijo que deixara a parede da entrada amarela, àquele lugar infeliz.
As casas não ficaram quadradas, as unhas não cresceram para trás, e os cabelos não ficaram castanhos porque a Felicidade morreu. As casas deixaram de ser redondas e as unhas deixaram de crescer para trás e os cabelos deixaram de ser azuis porque a Felicidade foi raptada, presa, enjaulada num lugar escuro, longe do mundo que a esperava. A Felicidade foi raptada e, as casas, as unhas e os cabelos, tudo ficou mal, tudo.