Não foi preciso muito, pois alguns dias mais tarde o tal fado quis que continuássemos essa conversa que não parecia ter um fim previsto. Facto foi que a continuámos. A sua forma de escrever era incrivelmente adequada à sua forma de falar, tímida mas sempre doce em cada palavra. Apaixonei-me.
Aquele nó que sentia na barriga aumentou e de súbito subiu até ao esófago, deixando a minha maça de Adão com um aspeto semelhante ao de um ascensor, sempre a subir e a descer, engolindo em seco de cada vez que a via, ou falava com ela.
Procurava-a todos os dias com o olhar, mas sempre que a via desviava-o, pois o receio de não saber que lhe dizer num encontro informal era demasiado grande. Vi-a algumas vezes e cumprimentava-a com um beijo na sua suave face. Sempre desejei alcançar mais, pois perto encontravam-se uns lábios perfeitos de uma deusa.
O local foi o mesmo, tal como no primeiro dia, desta vez o tempo que tinha-mos era maior e eu sabia que ela tinha um nó igual ao meu na sua garganta. Um que não a deixava falar e fazia com que os momentos de silêncio fossem trocados pelos momentos de conversa e os de fala pelos de silêncio, tornando as nossas conversações caladas, nas quais raramente falávamos, com a boca. Podia sentir o desejo que tinha de me abraçar, de estar mais perto de mim, pois eu tinha-o a dobrar. A vontade de a agarrar junto de mim, de sentir o seu calor próprio era intensamente perigosa, mas aquele nó não deixava que nada acontecesse.
Passeávamos junto ao rio que permanecia espelhado sob o fundo sujo e verde, pouca era a agitação que acontecia naquela noite escura. Ouviam-se as pessoas que passavam e as músicas que tocavam por ali perto, tudo criava um ambiente estranhamente acolhedor para aquele acontecimento, mas eu sabia que se não fosse eu mesmo, a tocar-lhe na mão, a beijar-lhe a sua bochecha, ou a dizer-lhe uma palavra, ela também não o faria.
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