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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Diário de Diogo

9 de Agosto de 1994

  Hoje acordei cedo e resolvi caminhar um pouco. Entre passadas e desvios percorri um trilho desconhecido que me citou as areias claras da praia. Dei de caras com a multidão consumista que sobrevive do ordinário e do não bom. Todos eles ostentavam reduzidos fatos propícios à praia, mas não ao seu corpo. A necessidade de mostrarem algo diferente mas igual a todos os outros é demasiado grande para se preocuparem com a aparência do seu físico.
   Percorri as pequenas dunas, passei por entre chapéus-de-sol, por entre falatórios e até por falsas e momentâneas demonstrações de amor. Cheguei à margem da água. Encontrava-se azul e agitada. O sol nascido há poucas horas, encontrava-se no céu pintado de um azul limpo e belo. 
  Coloquei-me de cócoras, e depois sentei-me. Fiquei a olhar durante pouco tempo aquela agitação que não me cativava. Fechei os olhos e limitei-me a ouvir. Esperava ouvir o forte som do rebentar das ondas, o embater da água na areia e os pássaros marinhos a esvoaçarem ali perto, mas não. Algo se destacou no meio desses sons previsíveis de ouvir – um lamurio sumido que não vinha de muito longe. Abri os olhos, naturalmente. E percorri todo o declive originado pela força das ondas. Descobri, perto da linha do horizonte, uma pequena rapariga. Encontrava-se sentada, tal como eu, na areia, e olhava o mar ao mesmo tempo que soltava pequenos lamentos que desassossegavam quem passasse por perto. Prendi-me àquele quadro durante alguns minutos e sem saber porquê, levantei-me num repente e voltei para casa. 
  A imagem da criança não saiu da minha mente durante todo o dia. E senti um aperto enorme no estômago – como quem leva um soco e fica dorido – por ter regressado a casa sem ter falado à pequena e abalada miúda.



10 de Agosto de 1994

  As cores do crepúsculo desenharam na janela do meu quarto um retrato demasiado harmonioso para ser ignorado. Abri a janela e contemplei a melhor e mais bela imagem que poderia ter visto durante todo o dia. Um céu que lembrava um quadro abstracto, com cores suaves e bem encaixadas. Um azul celestial que fazia lembrar os anjos, passando discretamente a um débil rosa que dava depois lugar a um amarelado que lembrava o ouro. Toda a paisagem se tornara dourada e perfeita, devido à fraca mas abundante luz do sol que se retirava para trás da linha do horizonte.
   Comovido com tal cenário e ainda frágil devido à pobre rapariga que permanecia na minha memória, abri a porta para o exterior. Todos os pormenores saltavam à vista, cada greta na madeira, cada rasgão no chão, cada erva simples, se tornava mais sublime quando em contacto com a luz dourada provida pelo pôr-do-sol.
   Coloquei um pé no caminho empedrado que me conduzira no dia anterior até à praia e apressei o meu andar habitual – calmo e imperturbável – correndo até encontrar a infeliz criança. Numa busca incessante com o olhar e com uma cólera que começava a transbordar do meu peito, procurei ao longe no horizonte para ver se encontrava de novo aquela alma. A praia encontrava-se quase deserta, só permaneciam dois, ou três grupos de pessoas.
   Quando me virava, desgostoso e com o ânimo gasto, lá estava ela. Era uma menina com os seus 10 anos, tinha um aspecto limpo, fisicamente, mas muito sujo e simples, no seu interior – podia vê-lo nos seus olhos.
   – Olá. – com um brilho no olhar, proferiu três letras e cerrou os lábios à espera de uma resposta. Fiquei de tal forma petrificado que não pude responder-lhe no momento. Desanimada, a criança preparava-se para regressar de onde tinha vindo.
   – Olá. Que fazes aqui sozinha? – engoli em seco, aquelas ultimas palavras tiveram um tom tão nervoso e preocupado que provavelmente a criança não iria responder.
   – Não sei. – um encolher de ombros foi o que recebi como resposta. – Queres ser meu amigo?
   Um aperto no meu peito, de tal modo forte, fez com que me apertasse a camisa para não dar um gemido de dor. Aquela criança estava sozinha e só queria alguém para brincar. O brilho dos seus olhos era deslumbrante e não conseguia olha-la por muito mais do que uns desprezíveis dois segundos. A sua pele era de um tom moreno, uniforme e limpo, os seus olhos não tinham uma cor definida, eram autónomos, de todas as vezes que olhava tinham tons diferentes, e com a união dos tons do crepúsculo tornavam-se assombrosos. O seu cabelo estava despenteado, tons de castanho predominavam, mas haviam madeixas naturais que reluziam e tornavam-no num fio de um anjo. – Não tens amigos? Onde está a tua família?
   – Os meus pais estão lá ao fundo. Eles não me ligam. – respondeu-me a pobre criança.
   – Diz-me, como te chamas?
   – Sou a Júlia.


11 de Agosto de 1994

   Olhei para o relógio de parede que permanecia de lado, na parede amarelada do meu quarto. O soar do despertador seria dali a uma hora, mas hoje voltei a acordar mais cedo. Passei toda a noite com a avassaladora imagem de Júlia na minha cabeça. O seu rosto triste de solidão e as suas palavras inocentes, ficaram destacados no meio de todas as preocupações ou ideias que pudesse ter naquele momento.
   Guilherme acordara uns dez minutos a seguir no seu quarto. Ouvi o ranger do seu pequeno berço. Puxei os lençóis para cima, olhei o retrato da minha falecida amante e caminhei até ao quarto do rebento deixado por ela. Agora já tinha quatro anos e mais tarde ou mais cedo teria de perceber que teve uma Mãe, mesmo que nunca a tenha conhecido.
   Beijei-lhe a testa e arrumei uma pequena sacola para leva-lo a dar uma volta na praia. O meu interior vibrava com receio, porque não sabia o que fazer caso encontrasse de novo a pobre criança.

   – Olá, posso brincar contigo? – dirigiu-se ao pequeno Guilherme com o mesmo brilho nos olhos do dia anterior. O anseio pela companhia, por uma nova amizade, estava impregnado na sua doce voz.
   – Olá Júlia, como te sentes? – resolvi cumprimentar a pequena, talvez se sentisse confortável com um pouco de atenção da minha parte. – Este é o Guilherme, é o meu filho. Podes ir brincar com ele para a beira-mar. – sorri.
   A pobre criança pegou na mão do meu filho e ele acompanhou-a pela mão até à rebentação das pequenas ondas que havia àquela hora.

   Não tinha irmãos, os pais não se preocupavam com ela, não conhecia família nenhuma, e tentava fazer amigos mas nunca conseguia. Era uma criança demasiado infeliz.  
  Estava dentro de água com o meu filho. Desviei o olhar durante um momento. No outro a seguir, levantava-o no ar. Sorriam os dois. Num instante menos observado ouvi um choro alto e vi Júlia a sair apavorada da água. Desenhava-se uma mancha vermelha ao redor de Guilherme, que flutuava nas águas daquele mar calmo e agora tingido de um sangue demasiado inocente para ser derramado.

   Eu adoptei-a mais tarde. Ela jurou que não teve intenção de fazer o que fez.
   Querido Diário, eu chamo-me Diogo, e foi assim que a minha filha se tornou numa assassina.

1 comentário:

  1. Um texto chocante, comovente, que nos aperta o coração até à última letra.
    Mais uma vez um texto glorioso!

    Felicidades.

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